
O cigarro eletrônico, conhecido popularmente como vape, deixou de ser uma novidade para se transformar em um dos principais desafios de saúde pública entre adolescentes. Em Goiás, os números chamam atenção. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) mostram que 39,2% dos estudantes entre 13 e 17 anos afirmam já ter experimentado dispositivos eletrônicos para fumar. O índice coloca o Estado entre os que registram maior consumo do produto no Brasil.
Além disso, o levantamento revela outro dado preocupante: 13,8% dos estudantes goianos disseram ter fumado algum tipo de cigarro antes dos 13 anos de idade. O cenário reforça o alerta de especialistas sobre a popularização dos dispositivos entre crianças e adolescentes, mesmo com a comercialização proibida no País desde 2009.
Embora a venda, importação, distribuição e propaganda sejam vetadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os produtos continuam circulando livremente por meio do mercado clandestino, principalmente nas redes sociais, aplicativos de mensagens e grupos de comércio informal.
Papel das redes sociais na popularização dos dispositivos
A ascensão dos cigarros eletrônicos acompanha diretamente o crescimento das redes sociais. Plataformas como Instagram, TikTok, WhatsApp e Telegram se tornaram vitrines para vendedores ilegais que oferecem os dispositivos sem qualquer controle de idade.
Os aparelhos costumam ser divulgados por influenciadores, vídeos curtos e conteúdos que associam o vape a um estilo de vida moderno, descontraído e socialmente aceito. Muitos modelos possuem design semelhante a pen drives, marca-textos ou pequenos acessórios eletrônicos, o que facilita o transporte e o uso discreto.
A pneumologista Dra. Carol Gomes Imai alerta que essa imagem de modernidade esconde riscos importantes. “Os vapes funcionam através do aquecimento de misturas líquidas que contêm nicotina, solventes, aromatizantes e diversas partículas químicas ultrafinas. Essas substâncias conseguem penetrar profundamente nos pulmões, provocando inflamação intensa das vias aéreas e alterações importantes nos mecanismos de defesa pulmonar”, explica.
Segundo especialistas, a ausência da fumaça tradicional faz muitos jovens acreditarem que o produto é inofensivo. No entanto, os danos podem surgir em pouco tempo e atingir principalmente o sistema respiratório.
A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já alertou que a indústria do tabaco tem investido em estratégias voltadas ao público jovem, utilizando embalagens coloridas, sabores doces e campanhas que reforçam a falsa percepção de menor risco.
Vape virou símbolo de status entre adolescentes?
Especialistas avaliam que, em muitos ambientes, o vape passou a representar mais do que um produto de consumo. Para parte dos adolescentes, o dispositivo se tornou um símbolo de pertencimento social.
A facilidade de esconder o aparelho, a variedade de sabores e a associação com tendências digitais ajudam a impulsionar essa percepção.
Durante audiência pública no Senado Federal, a senadora Ivete da Silveira alertou para o apelo visual dos dispositivos entre os jovens. “Sob alegações enganosas de que são menos prejudiciais que os cigarros tradicionais ou de que seu uso é algo estiloso ou socialmente aceito, muitos adolescentes acabam experimentando e se tornando dependentes desses dispositivos”, afirmou.