
Enchentes e alagamentos passaram a ser a principal preocupação ambiental dos moradores de Goiânia. É o que revela a pesquisa Viver nas Cidades: Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, divulgada nesta terça-feira (2) pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com o Ipsos-Ipec. O levantamento mostra que 50% dos entrevistados na Capital goiana consideram as inundações o maior problema ambiental da cidade, percentual que coloca Goiânia na segunda posição entre as dez capitais pesquisadas, atrás apenas de Porto Alegre, onde o índice chega a 64%.
O resultado evidencia uma mudança na percepção da população sobre os impactos ambientais urbanos. Problemas tradicionalmente associados às grandes cidades, como a poluição do ar, aparecem atrás das enchentes e alagamentos entre as principais preocupações dos moradores. O cenário ocorre em um contexto de aumento da frequência de eventos climáticos extremos e de recorrentes transtornos causados pelas chuvas em diferentes regiões da Capital.
A preocupação apontada pela população encontra respaldo em estudos e levantamentos sobre a vulnerabilidade urbana de Goiânia. Para especialistas, o crescimento acelerado da cidade nas últimas décadas, aliado ao aumento da impermeabilização do solo e às limitações da infraestrutura de drenagem, contribuiu para ampliar os riscos de alagamentos em diversos pontos da cidade.
O urbanista e doutor em Planejamento Urbano Fred Le Blue afirma que a expansão urbana ocorreu de forma incompatível com a capacidade dos sistemas de drenagem. Segundo ele, o avanço da verticalização e o adensamento populacional em diversas regiões reduziram a capacidade de absorção da água da chuva pelo solo. “O crescimento urbano da Capital ocorreu de forma incompatível com a infraestrutura de drenagem existente. Houve verticalização e adensamento desmedidos, o que impermeabilizou o solo e favoreceu alagamentos e inundações”, afirma.
De acordo com o especialista, a ampliação de áreas pavimentadas e construídas aumentou o volume de água escoado para galerias pluviais, córregos e canais urbanos, sobrecarregando estruturas que, em muitos casos, não acompanharam o ritmo das transformações urbanas registradas nas últimas décadas.
Entre os locais que simbolizam esse cenário está a Marginal Botafogo. Considerada uma das principais vias de Goiânia, a avenida enfrenta problemas recorrentes durante o período chuvoso e frequentemente registra interdições provocadas por alagamentos, erosões e enxurradas. Entre 2019 e 2023, foram contabilizadas pelo menos 40 interrupções no tráfego.
Segundo Fred Le Blue, a situação está relacionada ao modelo de ocupação urbana adotado ao longo dos anos, baseado na canalização de cursos d’água e na construção de vias sobre áreas que historicamente faziam parte da dinâmica natural de drenagem da cidade.
Além da Marginal Botafogo, outros pontos tradicionalmente afetados por alagamentos continuam concentrando ocorrências durante os períodos de chuva intensa. Entre eles estão a região da Avenida 85, nos setores Marista e Sul, a Avenida 87, a Avenida Castelo Branco e o Setor Urias Magalhães.
Nessas áreas, fatores como a proximidade de fundos de vale, a presença de bacias hidrográficas urbanas e a elevada impermeabilização do solo contribuem para o acúmulo de água e para a ocorrência de enxurradas. Especialistas também apontam que a redução de áreas verdes em algumas regiões da cidade pode comprometer a capacidade natural de drenagem.
Os dados da pesquisa dialogam ainda com levantamentos oficiais sobre áreas suscetíveis a desastres. Estudo coordenado pela Casa Civil da Presidência da República identificou 4.260 áreas de risco em Goiânia, o maior número registrado entre os municípios goianos. O levantamento classifica a Capital como área sujeita simultaneamente a deslizamentos, enxurradas e inundações.
A pesquisa do Instituto Cidades Sustentáveis mostra que a preocupação da população não se restringe aos transtornos provocados pelas chuvas. O levantamento também aponta uma percepção crescente sobre os impactos das mudanças climáticas no cotidiano urbano, incluindo eventos extremos, alterações nos padrões de temperatura e problemas relacionados à infraestrutura das cidades.
Como parte das medidas anunciadas para enfrentar os impactos das chuvas, a Prefeitura de Goiânia informou investimentos de R$ 120 milhões em obras de drenagem. Entre as intervenções previstas estão a construção de bacias de contenção, conhecidas como piscinões, e a instalação de cancelas automáticas na Marginal Botafogo para impedir o acesso de veículos em situações de risco.
A pesquisa revela ainda que 84% dos entrevistados acreditam que as prefeituras podem desempenhar papel importante no enfrentamento das mudanças climáticas. Entre as principais medidas apontadas pelos participantes estão o combate ao desmatamento, a ampliação das áreas de preservação ambiental e ações voltadas à melhoria da infraestrutura urbana.