O portal de notícias dos goianos!

A redução da abstenção é a solução?

Chamar os eleitores que não compareceram no primeiro turno é uma iniciativa legítima. Em uma disputa apertada, até uma pequena mudança na participação pode importar. A cautela começa quando a redução da abstenção passa a ser tratada como uma solução provável para o resultado eleitoral. Existe uma distância considerável entre pedir que as pessoas voltem à urna, conseguir que elas compareçam e saber a quem seus votos serão destinados.

O chamamento já apareceu em outras eleições. O TSE promoveu campanhas como a #VemPraUrna, em 2014, e fez convocações públicas para o segundo turno de 2022. Na série de dados que levantamos desde 2002, a abstenção aumentou entre os turnos em cinco das seis eleições gerais concluídas. A única queda ocorreu em 2022, de aproximadamente 0,36 ponto percentual.

Seria exagerado concluir que todos esses apelos fracassaram. Não sabemos quanto a abstenção teria aumentado sem eles, nem podemos atribuir a pequena redução de 2022 exclusivamente ao chamamento. O histórico permite uma conclusão mais prudente: convocar os ausentes não assegura uma queda expressiva da abstenção.

As razões da ausência

O número de ausentes reúne situações muito diferentes. A pessoa pode estar longe do domicílio eleitoral, enfrentar problemas de saúde ou ter dificuldades de mobilidade e deslocamento. Também pode estar desinteressada pela política ou não se sentir representada pelas alternativas disponíveis. Para avaliar o alcance de uma convocação, é preciso considerar tanto a disposição para votar quanto as condições para chegar à seção eleitoral.

Os dados de 2022 mostram maior ausência entre eleitores de baixa escolaridade e pessoas com 70 anos ou mais. Entre aqueles obrigados a votar, os jovens de 18 a 29 anos também tiveram menor comparecimento. Esses perfis ajudam a compreender a participação, mas não revelam os motivos de cada ausência nem a preferência de quem poderia voltar. Idade e escolaridade não bastam para transformar esse contingente em votos previsíveis para um candidato.

Um apelo pode estimular alguém desinteressado, mas não resolve automaticamente uma dificuldade de acesso. Em 2022, o incentivo ao comparecimento veio acompanhado de medidas como a oferta de transporte gratuito. Esse exemplo mostra por que é necessário distinguir o convite das condições que permitem atendê-lo: divulgar uma mensagem e remover um obstáculo são ações diferentes.

Mais eleitores, qual efeito?

Também precisamos ter cuidado com o tamanho da redução imaginada. Considerando os 158.745.502 eleitores aptos, uma queda de três pontos percentuais representaria aproximadamente 4,76 milhões de comparecimentos adicionais. Partindo dos 21,08% registrados no primeiro turno de 2026, a abstenção cairia para cerca de 18,08%. Seria uma redução muito maior que a observada em 2022. Essa conta descreve um cenário possível, não uma previsão.

Reduzir em 3% o número de ausentes é outra coisa. Sobre os aproximadamente 33,5 milhões que faltaram ao primeiro turno, isso representaria cerca de um milhão de pessoas. Confundir uma redução relativa de 3% com uma queda de três pontos percentuais altera bastante a dimensão da expectativa.

Mesmo os 4,76 milhões de comparecimentos não seriam uma vantagem desse tamanho para um dos candidatos. Supondo que todos esses votos fossem válidos e os demais permanecessem iguais, uma divisão de 50% para cada lado não mudaria a diferença entre eles. Uma distribuição de 55% contra 45% produziria vantagem adicional de aproximadamente 476 mil votos. Isso pode decidir uma eleição apertada, mas depende de uma distribuição que o chamamento, por si só, não garante.

Há ainda movimento nos dois sentidos: pessoas que faltaram podem comparecer, enquanto outras que votaram podem se ausentar. A taxa final registra o saldo, não identifica quem respondeu à campanha. Estimular a participação faz sentido; apostar nela como solução para uma virada exige admitir duas incertezas: quanto o comparecimento pode crescer e como esses votos serão distribuídos. O total de ausentes, sozinho, não responde a nenhuma delas.

Por: Portalgo