A presença do nome de Flávio Bolsonaro (PL) em documentos bancários de uma empresa controlada pelo advogado Willer Tomaz passou a ser analisada pela Polícia Federal (PF). O material levantou dúvidas entre os investigadores sobre a natureza da relação do candidato à Presidência com a Alcazar Holdings, companhia registrada em Portugal.
Segundo informações reveladas nesta quarta-feira (14), Flávio constava em registros da conta da empresa com a classificação de “usuário master”. A PF tenta esclarecer por que o nome do senador estava associado à estrutura bancária e se havia algum interesse econômico por trás do cadastro.
Não há, até o momento, comprovação de que Flávio tenha realizado transferências, recebido valores ou possuído participação formal na Alcazar.
A defesa do senador rejeita a hipótese de qualquer vínculo financeiro ou societário. Segundo a versão apresentada por seus representantes, o nome de Flávio teria sido incluído de maneira indevida no sistema do banco e posteriormente retirado.
Willer Tomaz também nega sociedade ou relação financeira com o candidato e afirma que os dois mantêm apenas uma relação pessoal de amizade.
Documentos foram encontrados em arquivos de Willer Tomaz
As informações integram documentos obtidos pela PF a partir de dados armazenados na conta do iCloud de Tomaz. O advogado é investigado na Operação Sem Desconto, que apura irregularidades envolvendo descontos em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Entre os arquivos examinados pelos investigadores está uma comunicação enviada ao Santander em maio de 2025. Na ocasião, uma funcionária do advogado pediu alterações nos usuários ligados à estrutura bancária da Alcazar.
O nome de Flávio estava entre os cadastros relacionados à conta. Após a solicitação, o banco confirmou a retirada de vínculos indicados na mensagem.
É esse registro que agora está sob análise. Para a PF, a documentação exige esclarecimentos sobre o motivo pelo qual um político sem participação formal conhecida na empresa aparecia com nível elevado de acesso à conta.
A defesa de Flávio, por outro lado, sustenta que o pedido de exclusão reforça justamente a tese de que o cadastro não correspondia a uma relação financeira efetiva.
Empresa participava de sociedade proprietária de avião
Outro aspecto que despertou a atenção dos investigadores é a ligação da Alcazar com uma aeronave utilizada por Flávio em janeiro de 2025.
A companhia de Tomaz possuía um terço da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., empresa que controlava um Embraer Legacy 650. O senador utilizou o avião em uma viagem internacional naquele período.
As demais participações na aeronave estavam distribuídas entre outros investidores e empresas, incluindo a Prime You, que teve Daniel Vorcaro entre seus sócios.
Vorcaro ficou conhecido nacionalmente em razão das investigações relacionadas ao Banco Master, instituição que controlava.
A conexão entre o cadastro bancário e a participação da Alcazar na empresa dona do avião levou a PF a examinar se havia alguma relação econômica ainda não esclarecida entre Flávio e a companhia.
Quando o uso da aeronave se tornou público, Flávio afirmou que viajou como convidado de Willer Tomaz.
O advogado disse que disponibilizou ao senador horas de voo correspondentes à participação que mantinha na aeronave e negou que tenha havido qualquer pagamento ou compensação por parte de Flávio.
PF reúne informações sobre relação entre senador e advogado
Além dos registros bancários, os investigadores mapearam outros episódios envolvendo Flávio e Tomaz ao longo de 2025.
A documentação inclui viagens realizadas pelos dois ao exterior, algumas delas acompanhados de familiares. A Polícia Federal busca identificar como determinadas despesas foram pagas e qual foi a participação de empresas relacionadas ao advogado na organização desses deslocamentos.
Tomaz afirma que se tratavam de viagens particulares e que os convidados não desembolsaram valores nem ofereceram vantagens em troca.
Uma das empresas que aparecem no material é a Cathedral Holding, citada em registros relacionados à aquisição ou intermediação de passagens.
Os documentos também indicam que Flávio e Tomaz utilizavam o aplicativo Confide para algumas comunicações. O serviço permite o envio de mensagens temporárias e possui recursos voltados à privacidade.
O uso da plataforma não representa, por si só, qualquer irregularidade. A informação foi incluída pela PF no levantamento destinado a reconstruir a relação entre o advogado e o senador.
Investigações também alcançam negociações envolvendo Vorcaro
Flávio Bolsonaro também aparece em outra frente de investigação que envolve Daniel Vorcaro.
Relatórios policiais já apontaram a participação do senador em conversas relacionadas à busca de financiamento para o projeto cinematográfico “Dark Horse”, sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
Essa apuração não é a mesma que trata da Alcazar Holdings.
Até agora, não foi demonstrado que recursos relacionados ao projeto cinematográfico tenham passado pela conta da empresa portuguesa ou pela estrutura bancária em que o nome de Flávio foi encontrado.
A PF analisa separadamente os diferentes contatos e relações financeiras identificados nas investigações.
Defesa contesta interpretação da PF
Os representantes de Flávio Bolsonaro afirmam que o candidato nunca foi sócio da Alcazar e não dividiu conta bancária com Willer Tomaz.
A defesa considera incorreta a interpretação de que o cadastro como “usuário master” seja suficiente para apontar a existência de participação econômica na companhia.
Também questiona a divulgação das informações durante a campanha presidencial.
Tomaz apresenta versão semelhante. O advogado afirma que não mantém negócios em sociedade com Flávio e sustenta que as viagens e demais contatos entre os dois decorreram da amizade que mantêm.
A Polícia Federal continua analisando os documentos para identificar a origem do cadastro e verificar se ele correspondia apenas a um registro administrativo ou se havia alguma relação econômica ainda não identificada.
Por: Portalgo