Em A eleição chegou. O entusiasmo, não, procurei discutir a distância entre o avanço do calendário eleitoral e a disposição das pessoas para acompanhar a disputa. Os candidatos apareciam todos os dias, enquanto parte do eleitorado parecia ocupar-se de outras coisas. Depois do primeiro turno, esse ambiente começou a apresentar sinais de mudança. A mobilização da esquerda ganhou presença nas ruas, e a candidatura de Flávio Bolsonaro passou a cobrar mais empenho de seus aliados. O segundo turno parece ter mudado o ânimo de uma parte da campanha. Resta observar até onde essa disposição chega entre os eleitores.
As manifestações de 11 de outubro ajudam a perceber o que está acontecendo. Lula participou de um ato na Avenida Paulista, enquanto apoiadores organizaram atividades em outras cidades. A cobertura registrou um esforço para recuperar o ânimo depois do resultado do primeiro turno e envolver a juventude. Há uma mudança visível na disposição de participar: pessoas ocupam as ruas, compartilham a experiência e levam a disputa para suas redes de contato. Para quem acompanhava pouco a eleição, essas cenas podem se tornar um novo contato com a campanha, sobretudo quando chegam por meio de alguém próximo.
É nesse contato que o alcance da mobilização começa a importar. Quem já tinha uma preferência definida pode recuperar a disposição de fazer campanha, enquanto alguém que vinha acompanhando pouco pode simplesmente voltar a ouvir e conversar sobre a eleição. O entusiasmo dos apoiadores e o interesse de quem estava distante podem crescer em ritmos diferentes. A presença nas ruas registra o primeiro movimento com mais clareza. Para compreender o segundo, precisamos acompanhar o que chega às pessoas fora dos atos e o espaço que a disputa passa a ocupar em sua rotina.
Depois das urnas
O primeiro turno oferece um resultado concreto em torno do qual as campanhas precisam se reorganizar. Quem esperava uma situação mais confortável pode perceber que a vitória exige esforço adicional. Quem saiu na frente precisa sustentar sua posição até uma nova votação. Com duas candidaturas disputando diretamente a Presidência, também fica mais claro o confronto que será resolvido no segundo turno. A escolha ganha proximidade para pessoas que, até então, dedicavam pouca atenção às possibilidades apresentadas durante a campanha.
Essa proximidade ajuda a entender por que o envolvimento pode aparecer tarde. Algumas pessoas passam a agir pela confiança na vitória; outras, pela preocupação com a derrota. Há quem se mobilize porque começou a considerar mais próximas as consequências de um eventual governo adversário. A mesma eleição pode despertar esperança em um eleitor e receio em outro, levando ambos a acompanhar a disputa com mais atenção. O cansaço com a política pode continuar presente, enquanto a importância atribuída ao resultado aumenta.
No artigo Anxiety, Enthusiasm, and the Vote, George E. Marcus e Michael B. MacKuen estudaram o papel das emoções nas campanhas presidenciais. A ansiedade diante de ameaças e novidades pode estimular a atenção e a busca de informação; o entusiasmo pode aumentar o interesse e o envolvimento com a campanha. Essa distinção ajuda a formular uma hipótese para o momento atual: parte das pessoas pode ter começado a acompanhar a eleição com mais atenção porque passou a perceber a disputa como mais próxima e relevante para sua vida. O estudo trata de campanhas nos Estados Unidos; aqui, ele oferece uma explicação possível a ser examinada à luz do comportamento dos brasileiros.
O problema da atenção escassa permanece, mas a eleição pode mudar de lugar entre as prioridades do cidadão. Alguém que recebeu mensagens durante meses pode começar a considerar algumas delas justamente agora. Uma conversa antes evitada passa a ser aceita, um vídeo recebe alguns minutos e uma proposta provoca uma pergunta. Esse movimento pode ocorrer mesmo entre pessoas com o voto definido, interessadas em compreender melhor o confronto ou acompanhar o que seu candidato está fazendo. A campanha ganha espaço na rotina antes de produzir, necessariamente, uma mudança de preferência.
A eleição de alguns já acabou
Para que essa presença continue crescendo, as campanhas também dependem de suas estruturas de mobilização. No encontro realizado em São Paulo em 11 de outubro, Flávio Bolsonaro pediu empenho para levar novamente às urnas os eleitores que o apoiaram. Tarcísio de Freitas cobrou participação das lideranças locais, e Ricardo Nunes pediu a retomada de comitês, a distribuição de adesivos e a realização de bandeiraços. A cobrança mostra que a continuidade do trabalho é uma preocupação dentro da própria aliança. Uma declaração de apoio precisa encontrar correspondência no esforço de campanha.
Uma explicação possível para essa preocupação está nas disputas que já terminaram. Deputados e senadores foram eleitos, algumas eleições estaduais se encerraram e equipes organizadas em torno dessas candidaturas podem reduzir sua atividade. A Presidência continua em disputa, mas o objetivo pessoal de parte dos aliados já foi alcançado. É nesse ponto que cabe investigar uma possível acomodação: lideranças que se empenharam intensamente em suas próprias eleições podem dedicar menos tempo e estrutura à candidatura presidencial depois de resolverem sua situação.
O comportamento desses aliados depende também do que esperam da relação com o futuro governo federal. Alguns podem considerar essencial manter o esforço até o fim; outros podem entender que sua contribuição principal já foi dada. O apoio partidário reúne pessoas com interesses e graus de envolvimento diferentes. Por isso, interessa observar o que acontece com as equipes, os contatos locais e as atividades organizadas para o primeiro turno. Uma campanha pode contar com muitas lideranças e encontrar dificuldades para manter toda essa estrutura trabalhando com a mesma intensidade.
Essa estrutura importa porque a participação também passa pelos vínculos entre as pessoas. Em Voice and Equality: Civic Voluntarism in American Politics, Sidney Verba, Kay Lehman Schlozman e Henry E. Brady analisam a participação política considerando recursos, disposição e redes de mobilização. Os autores mostram a importância dos convites e das solicitações para que cidadãos se envolvam. Isso ajuda a compreender o papel das equipes e dos apoiadores na continuidade de uma campanha: são pessoas que mantêm contatos, chamam outras para atividades e fazem a disputa circular no cotidiano.
Ao mesmo tempo, a vantagem obtida no primeiro turno pode alimentar uma confiança excessiva, enquanto o adversário encontra motivos para reagir. Essa combinação permite pensar em ritmos diferentes dentro da mesma eleição: apoiadores que retomam a iniciativa e aliados que precisam ser chamados a manter o trabalho. Para avaliar o que está ocorrendo, é preciso acompanhar tanto a mobilização visível quanto as atividades locais e os contatos que raramente aparecem nas imagens dos grandes eventos. O ânimo de uma campanha também se revela no esforço de quem trabalha por ela.
O que chega a quem estava distante?
É por meio desse trabalho e dessas relações que a mobilização pode alcançar pessoas pouco envolvidas. Alguém que acompanha pouco o noticiário pode ouvir sobre a eleição em casa, no trabalho ou numa conversa com amigos. Quando uma pessoa próxima muda sua disposição e começa a falar da disputa, a campanha ganha uma presença diferente daquela produzida pela propaganda que aparece na tela e é rapidamente ignorada. Uma informação passa a ter um interlocutor conhecido, capaz de comentá-la e relacioná-la a preocupações que já fazem parte daquela conversa.
Julia Metag e Gwendolin Gurr estudaram uma campanha de referendo na Suíça no artigo Too Much Information? A Longitudinal Analysis of Information Overload and Avoidance of Referendum Information Prior to Voting Day. O aumento da sensação de sobrecarga informacional dentro do mesmo indivíduo esteve associado à maior evitação de notícias sobre o tema. Nas conversas interpessoais, o mesmo padrão de aumento da evitação não apareceu. O resultado ajuda a pensar em como a disputa pode continuar chegando a pessoas que reduziram o consumo direto de notícias. A experiência suíça oferece uma pista sobre esse canal de contato, cujo alcance na eleição brasileira precisa ser investigado.
A questão, portanto, é acompanhar o que acontece depois desse contato. Uma pessoa pode voltar a conversar sobre política e conservar sua preferência; outra pode reconsiderar a escolha; um apoiador pode recuperar a disposição de participar das atividades de campanha. O crescimento da mobilização abre possibilidades que precisam ser examinadas separadamente. O comparecimento às urnas é uma delas e envolve condições e motivações próprias, mesmo entre aqueles que manifestam apoio a um candidato.
Essa cautela também vale para o chamamento de quem faltou ao primeiro turno. Em A redução da abstenção é a solução?, discuti a distância entre convocar os ausentes, conseguir que compareçam e saber a quem seus votos serão destinados. A BTG/Nexus, em pesquisa realizada de 10 a 12 de outubro, acrescenta um dado: entre os entrevistados que declararam não ter comparecido, 49% indicaram voto em Flávio Bolsonaro e 41% em Lula. A mobilização dos ausentes não oferece vantagem automática a quem faz o chamamento. Seu efeito depende de quais pessoas respondem ao apelo, chegam à urna e em quem votam. O recorte reforça essa incerteza, sem permitir antecipar o comportamento de quem efetivamente voltará a votar.
Para avaliar a mudança de ânimo, interessa saber se as conversas se ampliaram para além dos apoiadores habituais, se pessoas pouco envolvidas passaram a buscar informações e se as lideranças locais mantiveram o trabalho depois de encerradas suas disputas. O tamanho dos atos registra a capacidade de reunir participantes; pesquisas e observações continuadas ajudam a examinar o que ocorre fora deles. A energia que aparece nas ruas ganha alcance eleitoral conforme encontra pessoas dispostas a ouvir, participar ou reconsiderar suas escolhas.
O segundo turno parece ter devolvido energia a uma parte da campanha. A esquerda procura levar sua reação às ruas e às conversas, enquanto a candidatura de Flávio cobra a continuidade do esforço de seus aliados. A eleição ganhou movimento. Nos próximos dias, será importante observar se essa movimentação permanece entre os já engajados ou consegue entrar na rotina de quem vinha acompanhando tudo à distância.
Texto elaborado em 13 de outubro de 2026, com base nas informações disponíveis até essa data.
Fontes e leituras
George E. Marcus; Michael B. MacKuen. Anxiety, Enthusiasm, and the Vote: The Emotional Underpinnings of Learning and Involvement During Presidential Campaigns. American Political Science Review, v. 87, n. 3, 1993, p. 672–685.
Sidney Verba; Kay Lehman Schlozman; Henry E. Brady. Voice and Equality: Civic Voluntarism in American Politics. Harvard University Press, 1995.
Julia Metag; Gwendolin Gurr. Too Much Information? A Longitudinal Analysis of Information Overload and Avoidance of Referendum Information Prior to Voting Day. Journalism & Mass Communication Quarterly, v. 100, n. 3, 2023, p. 646–667.
Bruno Ribeiro; Mariana Grasso; Bruno Lucca. Lula reúne multidão na Paulista, e esquerda replica atos pelo país em busca de onda contra Flávio. Folha de S.Paulo, 11 de outubro de 2026.
João Paulo Alexandre. Flávio Bolsonaro diz que cenário eleitoral é favorável, mas alerta aliados: “Não podemos baixar a guarda”. Jornal Opção, 11 de outubro de 2026.
Nexus. BTG Pactual/Nexus: Eleições 2026, rodada 17. Divulgação em 13 de outubro de 2026; entrevistas de 10 a 12 de outubro; 2.002 entrevistados; registro TSE BR-07997/2026. Cruzamento entre voto declarado no primeiro turno e intenção de voto no segundo turno, p. 25.
Leandro Rodrigues. A eleição chegou. O entusiasmo, não. Substack, 2026.
Leandro Rodrigues. A redução da abstenção é a solução?. PortalGO, 8 de outubro de 2026.
Por: Portalgo