Brasileiro ainda falou sobre apoio da família em busca do sonho, relacionamento com Mattia Binotto e Max Verstappen e paixão por videogames
Gabriel Bortoleto já viu Kimi Antonelli e Isack Hadjar subirem ao pódio na Fórmula 1. São pilotos da sua geração, com os quais compartilhou o grid de categorias de base. Ele os conhece, correu contra eles e sabe que os venceu. No entanto, suas carreiras passam por momentos distintos hoje, com o brasileiro envolvido em um outro desafio: contribuir para o crescimento de um projeto de longo prazo.
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A situação poderia gerar impaciência, mas Bortoleto parece ter encontrado uma forma muito lúcida de conviver com isso. “Vejo Hadjar e também Kimi. São os dois da minha geração que estão conquistando pódios. Corri a vida toda com eles e nas categorias de base também fui bem em comparação com eles e conheço minhas capacidades. Mas preciso ter paciência, cada um tem o seu caminho. Veremos daqui a vinte anos como terminaremos”.
Essa última frase provavelmente é a que melhor descreve o brasileiro. Aos 22 anos, já realizou o sonho de criança de chegar à F1, mas não sem descobrir o outro lado da moeda. Depois de anos vencendo, lutando por campeonatos e vitórias, hoje precisa medir o progresso com uma régua diferente.
“Estou muito feliz por estar na F1, é o primeiro passo de um sonho que sempre tive. Ao mesmo tempo, sou sincero: é difícil quando você vem das categorias de base, onde venceu, e chega à F1 sabendo que não pode lutar pelas primeiras posições, já são quase dois anos. Hoje o objetivo é conquistar pontos e não é fácil”.
O principal, porém, é o que Bortoleto vê à sua frente. Ele não considera a Audi uma etapa intermediária à espera de uma chance melhor e não fala como um piloto que espera se provar para convencer uma das equipes de ponta. Sua aposta é outra: ainda estar lá quando a Audi ocupar a frente do pelotão.
“O que me motiva e me impulsiona a seguir em frente é o projeto do qual faço parte. Não estou em uma equipe cuja ambição é permanecer onde estamos hoje. Estou em uma que melhora a cada ano e que tem pela frente um projeto claro de longo prazo. Espero que um dia eu olhe para trás e veja que o caminho percorrido serviu para chegar ao alto”.
É uma convicção que aparece várias vezes durante a conversa. Mesmo quando lhe é apontado que, pela idade e pelas perspectivas, ele representa um dos pontos firmes do programa da Audi, Bortoleto não fala de pressão.
“Orgulho sim, pressão não. Os momentos difíceis virão, haverá outros em que você não vence e eu preciso continuar trabalhando a minha cabeça, a mim mesmo e me desenvolvendo como piloto. Porque no dia em que a Audi me der a oportunidade de vencer, com um carro e um motor vencedor – e isso vai acontecer, não acho que vá demorar tanto – terei de estar pronto para mostrar que sou capaz”.
Chama a atenção o “vai acontecer”. Não “se”, mas “quando”. Bortoleto parece ter aceitado que seu percurso exige uma moeda que um piloto jovem normalmente tem dificuldade para gastar: o tempo.
Especialmente porque ele sabe perfeitamente que as hierarquias podem mudar. “Agora Hadjar e Kimi estão mais perto do objetivo final, que é vencer um Mundial, mas pode ser que em um ano tudo mude, nunca se sabe. Preciso continuar fazendo o meu melhor”.
Muito mais do que um chefe
Gabriel Bortoleto, Audi F1 Team, Mattia Binotto, Audi F1 Team
Foto di: Guido De Bortoli / LAT Images via Getty Images
Há uma pessoa com quem Bortoleto fala frequentemente sobre essa situação: Mattia Binotto. O responsável pelo projeto da Audi esteve com a Ferrari durante os anos vencedores, atravessou ciclos muito diferentes e hoje se encontra construindo algo a partir de bases completamente novas.
“Falo muito com Mattia. Peço ajuda a ele com frequência sobre essa situação porque sei que tem muita experiência e entende o que estou passando agora. Ele já esteve em uma equipe vencedora e agora está em uma que quer vencer. Ele me ajuda muito”.
A relação deles, porém, parece ter ido além daquela tradicional entre um piloto e o comando de sua equipe.
“É um mentor, um amigo, um chefe, mas também é uma figura muito diferente do que eu imaginava. Porque quando você tem um chefe normalmente a relação é um pouco formal, mas ele é diferente. Não o vejo apenas como um chefe, mas também como uma pessoa a quem posso recorrer para pedir conselhos sobre minha vida pessoal. Esse aspecto é muito bonito”.
Há ainda outro conselheiro, bastante particular. Chama-se Max Verstappen.
Gabriel Bortoleto, Audi F1 Team, Max Verstappen, Red Bull Racing
Foto di: Jayce Illman / Getty Images
Os dois são amigos, compartilham a paixão pelo sim racing e Bortoleto não esconde que essa relação lhe permite colher conselhos preciosos e não necessariamente sobre como enfrentar uma curva ou preparar uma classificação. O brasileiro quer entender como nasce uma equipe vencedora.
“Falo frequentemente com Max. Obviamente os detalhes ficam entre mim e ele, mas muitas vezes falamos de como me sinto, como estou crescendo, o que quero da Audi e como estamos nos desenvolvendo como equipe. Pergunto a ele sobre a situação que viveu na Red Bull antes de vencer o Mundial: como eram as coisas, como a equipe funcionava”.
São perguntas que às vezes surgem da forma mais informal possível, até mesmo durante uma sessão de videogame: “São coisas que me vêm à cabeça talvez enquanto estamos jogando e então eu pergunto a ele”.
Binotto e Verstappen representam duas perspectivas diferentes sobre a mesma questão. O primeiro sabe o que significa construir uma estrutura para vencer, o segundo viveu pessoalmente a espera que precedeu o primeiro título mundial. Bortoleto escuta os dois porque seu desafio não é apenas ser rápido, mas se preparar para o momento em que terá as ferramentas para vencer.
Sem plano B
Gabriel Bortoleto, Audi F1 Team
Foto di: Andy Hone/ LAT Images via Getty Images
A paciência que ele mostra hoje é curiosa se comparada ao Gabriel das categorias de base. Naquela época, ele não queria ouvir falar de alternativas.
“Nunca”, responde quando lhe questionam se teve um plano B. “Muitas pessoas me diziam que era errado pensar assim, e pode ser que fosse, porque há muitas categorias bonitas no automobilismo que oferecem a possibilidade de se tornar profissional e correr em alto nível. Mas eu queria chegar à F1 porque era a categoria com que sonhava desde criança”.
Com o passar dos anos, quem estava ao seu redor tentava trazê-lo de volta à realidade. Os assentos disponíveis eram poucos, a renovação limitada e muitos bons pilotos ficavam de fora. “Diziam-me: ‘Mesmo que você vença a F3 e mesmo que esteja vencendo a F2, se depois isso não acontecer, o que você vai fazer?’ e eu respondia: ‘Isso não entra na minha cabeça. Nem me fale isso’. Eu ficava puto e ia embora”.
A resposta veio na pista. Bortoleto venceu a F3 como estreante e no ano seguinte chegou à F2. Um dos momentos de que se lembra com maior intensidade é na etapa de Monza de 2024.
Na classificação, acabou na brita na primeira curva. Lutava pelo campeonato e Isack Hadjar largaria à frente, enquanto Gabriel sairia da última posição. Por alguns minutos pensou ter colocado tudo a perdes: “Disse a mim mesmo: largo em último, ele em terceiro, mesmo que eu faça a corrida da minha vida, em que posição posso terminar? Temos todos carros iguais e não é que um seja muito mais forte que o outro. Até os engenheiros diziam que não seria fácil ultrapassar”.
Ele venceu corrida.
“Com tudo o que aconteceu na corrida, vencer foi uma emoção incrível, realmente especial”. Era também uma mensagem ao paddock. Bortoleto ainda não tinha contrato para correr na F1 e sabia que cada oportunidade podia ser decisiva. “Eu precisava mostrar que merecia”.
A ligação que vale vinte anos
Gabriel Bortoleto, Audi F1 Team
Foto di: Sam Bloxham / LAT Images via Getty Images
Quando a ligação finalmente chegou, Bortoleto não tinha compreendeu totalmente o que estava acontecendo. As negociações com a Audi haviam começado havia algum tempo, mas não estava claro se o projeto dizia respeito a 2025 ou a 2026. Então o empresário ligou comunicando a data do anúncio.
“Eu disse a ele: ‘Que anúncio? Para 2026?’ e ele: ‘Não, para 2025!’. Eu respondi: ‘Mas o que você está dizendo, para 2025?’ e ele: ‘Você correrá em 2025 como titular'”. Bortoleto estava em casa, em Milão, com a namorada, e ligou imediatamente para a família no Brasil.
“Fiz uma videochamada com meu pai, minha mãe e meu irmão e disse: ‘Preciso contar uma coisa, parem tudo!’ Lembro bem que minha mãe chorava, meu irmão estava emocionadíssimo e meu pai não sabia o que dizer”.
É talvez o momento em que, durante a entrevista, o piloto dá mais espaço ao menino. Porque por trás daquele assento havia anos de kart, viagens e sacrifícios que Bortoleto havia vivido de uma perspectiva diferente da dos pais.
“É impossível explicar o que significa, mas é o objetivo alcançado de um trabalho que levou vinte anos. Sei quantos dias meu pai não esteve em casa, quantas corridas ele não pôde ir ver quando eu era pequeno porque precisava trabalhar”.
“Houve muitos sacrifícios da parte deles, inclusive viver longe de mim para seguir com o trabalho. Naquele dia, quando fizemos aquela videochamada, acho que o que passou pela minha cabeça foi: é uma grande conquista para mim, mas para meu pai e minha mãe é ainda maior. Todos os sacrifícios serviram para algo”.
Talvez seja também daí que nasce uma relação com o dinheiro bastante distante daquela que muitas vezes se associa ao mundo da F1. Quando lhe perguntam se entre os pilotos também existe uma competição sobre salários, Bortoleto sorri com a ideia.
“Não me interessa quanto os outros ganham. Me interessa ter um carro vencedor e um bom projeto pela frente, o dinheiro é uma consequência. Se você é um grande campeão, dinheiro nunca vai lhe faltar. Se vence corridas, a última preocupação que deve ter é o dinheiro que entra”.
Depois acrescenta uma consideração que conta algo sobre ele: “Se for o caso, o problema é onde gastá-lo ou quem ajudar. Se você ganha todo esse dinheiro e não ajuda aqueles que estão ao seu redor, não o merece”.
Uma cabeça que não desliga
Gabriel Bortoleto, Audi F1 Team
Foto di: Andy Hone/ LAT Images via Getty Images
Bortoleto admite ter um problema comum a muitos pilotos: tem dificuldade em parar de pensar nas corridas. Sua ‘válvula de escape’ são os videogames, mesmo quando o que aparece no monitor continua tendo quatro rodas.
“Minha mente está sempre nas corridas. Preciso de algo que me faça desligar do que faço pelo resto do dia. Às vezes o tema continua sendo o automobilismo, mas vivido de uma forma diferente. Ali estou rindo, me divertindo, não é um trabalho. Não preciso buscar a perfeição”, diz. Até porque, para ele, a perfeição não existe.
“A volta perfeita, não, acho que não existe, porque perfeição significaria poder dizer: ‘Eu não tinha nada a mais’. Porém, pode existir uma volta muito próxima da perfeição. A perfeição não é humana. A perfeição, para mim, são as simulações no computador”.
É talvez outra chave para compreender sua abordagem. Bortoleto tem como objetivo continuar melhorando. “Estudo, tento entender. No fim, daqui a vinte ou trinta anos, quando olhar para trás, não quero pensar que não fiz tudo o que podia fazer”.
Antes de se despedir, uma última pergunta: ‘Daqui a cinco anos, onde estará Gabriel Bortoleto?’. “Esperamos que esteja vencendo títulos mundiais, obviamente com a Audi”.
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Por: Motorsport.uol