Joice Hasselmann, ex-deputada federal e ex-líder do governo Jair Bolsonaro no Congresso, declarou voto em Lula no segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25), e afirmou que retorna à oposição, mas dentro das regras democráticas. A posição foi anunciada em vídeo no Instagram e em entrevista exclusiva ao jornalista Leonardo Attuch, que vai ao ar nesta quinta-feira (22), às 20h, na TV 247.
Joice diz votar em Lula para ‘não perder a democracia’
Ao justificar a decisão, Joice afirmou que escolhe Lula para preservar o regime democrático diante do que classifica como ameaça representada pelo bolsonarismo e pela família Bolsonaro, embora mantenha divergências com o PT. “Afinal, perder uma eleição, tudo bem. Perder a democracia, jamais”, declarou.
No vídeo, ela diz votar no atual presidente sem ambiguidade: “Voto em Lula, sem meias palavras, sem hipocrisia”. Em seguida, ressalta que o gesto não significa adesão ao programa petista, mas uma escolha para garantir o funcionamento das instituições após a eleição. “Sim, volto à oposição, mas dentro do processo democrático, onde é possível fazer oposição”, afirmou.
Joice insiste na distinção entre diferenças de projeto político e risco institucional. “Hoje posso confirmar: os dois lados não são iguais”, disse, ao defender que o campo adversário, apesar das discordâncias que mantém, atua “dentro das regras da democracia”.
Rompimento com o bolsonarismo e acusações à família
Na entrevista, a ex-parlamentar revisita sua trajetória desde a campanha de 2018, quando apoiou Bolsonaro e assumiu a liderança do governo no Congresso. Ela conta que a ruptura começou ainda no primeiro ano de mandato, ao conviver com o núcleo familiar e aliados do então presidente.
“Em 2018, acreditei em Bolsonaro, sim”, reconhece. Segundo Joice, a experiência no Planalto revelou um quadro muito distinto do que havia sido prometido. “Eu vi o clã por dentro”, resume. Ela afirma ter responsabilidade na ascensão de Bolsonaro, mas diz que não podia seguir silenciosa: “Eu errei em ajudar, mas não poderia ficar de braços cruzados”.
Joice faz ataques diretos à família do ex-presidente, que hoje tem o senador Flávio Bolsonaro como candidato ao Planalto. Em sua avaliação, uma eventual vitória de Flávio abriria caminho para um longo ciclo de poder familiar e corrupção. Ela fala em risco de “perpetuação no poder” e de “assalto aos cofres públicos” caso o grupo volte a controlar o governo federal.
Relato de agressões e denúncia de plano de golpe
A ex-deputada volta a falar publicamente sobre o episódio de violência que diz ter sofrido em seu apartamento, em 2021, quando foi encontrada com diversos ferimentos. O título da entrevista que será exibida na TV 247 ecoa sua acusação mais dura: “Bolsonaro tentou me matar”, afirma Joice.
Ela relata uma escalada de perseguições após o rompimento com o ex-presidente, incluindo perda de espaço político, ataques coordenados à sua reputação, supostos grampos e agressões físicas. Segundo Joice, o espancamento em seu apartamento fez parte desse contexto.
Outro ponto central do depoimento é a denúncia de um plano de golpe discutido, segundo ela, já no início do governo. “Esta minuta já existia no primeiro ano de governo”, diz, ao contar que levou informações sobre o documento ao então presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli. A narrativa reforça a tese de que havia articulações para uma ruptura institucional antes mesmo do agravamento da crise política.
‘Já perdi muito e não tenho medo de perder’
Ao tornar público o voto em Lula a poucos dias do segundo turno, Joice reconhece que assume um custo pessoal e político elevado. Ex-aliada central do bolsonarismo, ela prevê novas hostilidades do grupo que ajudou a construir.
“Já perdi muito e não tenho medo de perder”, diz, ao mencionar a perda de mandato, de aliados e de base eleitoral após romper com o ex-presidente. Para a ex-parlamentar, o preço de se calar diante do que considera um risco à democracia seria maior do que os danos à sua própria carreira.
A aposta, afirma, é que uma vitória de Lula permitirá a reorganização de uma oposição liberal-conservadora dentro das instituições, sem ameaças de fechamento do Congresso ou intervenção no Judiciário.
Decisão da Justiça favorece Joice em disputa com Michelle
Enquanto volta ao centro do debate político, Joice Hasselmann também obteve uma vitória judicial contra Michelle Bolsonaro. A 5ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios manteve a decisão que rejeitou o pedido da ex-primeira-dama para retirar do ar um vídeo gravado por Joice e para condená-la ao pagamento de R$ 30 mil por danos morais.
Na ação, Michelle alegava ter sido ofendida por adjetivos usados pela ex-deputada. O colegiado, porém, entendeu que o episódio se enquadra nos limites do debate público sobre figuras políticas.
Relatora do caso, a desembargadora Leonor Aguena escreveu no acórdão que “a vida pregressa de quem se projeta voluntariamente na arena pública e pretende representar a sociedade em cargos eletivos sofre legítimo escrutínio quanto à coerência de suas bandeiras discursivas”. A decisão reforça, na prática, o entendimento de que ocupantes e candidatos a cargos eletivos estão sujeitos a crítica mais intensa.
Ex-aliados engrossam críticas ao bolsonarismo
O movimento de Joice ocorre em meio a uma série de manifestações de ex-aliados de Bolsonaro contra o projeto político hoje encabeçado por Flávio Bolsonaro. Entre eles está o general Santos Cruz, que integrou o primeiro escalão do governo.
Em declarações recentes, o militar classificou o bolsonarismo como um desvio em relação à direita democrática. “Bolsonarismo não é direita, mas vigarice, e a família é capacho dos EUA”, afirmou, ao acusar o grupo de subserviência aos interesses norte-americanos.
As falas de Joice e Santos Cruz alimentam um movimento de dissidência interna no campo bolsonarista, às vésperas do segundo turno. Ao mesmo tempo, oferecem munição simbólica à campanha de Lula, que tenta se apresentar como opção de preservação institucional diante de um adversário acusado de flertar com soluções autoritárias.
Com a entrevista programada para a noite desta quinta-feira (22) e a votação marcada para domingo (25), o depoimento de Joice Hasselmann promete repercutir nas redes sociais e no debate político, especialmente entre eleitores de direita que se afastaram do bolsonarismo, mas ainda resistem a declarar voto em Lula.
Por: Ncnews