
O concurso público da Câmara Municipal de Goiânia, que reuniu mais de 30 mil inscritos para 622 vagas, passou a ser alvo de investigação de órgãos de controle após o surgimento de indícios de irregularidades envolvendo candidatos com vínculos com a banca organizadora. Um parecer da Secretaria de Controle Externo de Atos de Pessoal do Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCM-GO) recomenda a suspensão parcial imediata do certame, apontando possíveis violações aos princípios da impessoalidade, moralidade administrativa e isonomia.
O principal foco da apuração é a aprovação em primeiro lugar para o cargo de administrador de Luã Lírio de Souza Cruz, que obteve 96 pontos de um total de 100. Além de candidato, ele é servidor efetivo da Universidade Federal de Goiás (UFG) e atuava como bolsista no Instituto Verbena, entidade responsável pela organização do concurso, durante o período de realização das provas.
De acordo com denúncias acolhidas pelo TCM-GO e pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO), o vínculo de Luã com a banca organizadora não se limitava a uma relação formal. Documentos indicam que ele exerceu funções estratégicas dentro do instituto, como coordenador de logística, assessor comercial e editor-chefe do Jornal Oficial do Instituto Verbena. Há ainda registros de participação em reuniões sobre segurança institucional e controle de acesso aos cofres da entidade apenas 31 dias antes da aplicação das provas.
A linha do tempo apresentada no processo reforça os indícios de conflito de interesses. Em 10 de março de 2026, cinco dias antes da realização do exame, Luã representou oficialmente o Instituto Verbena em um evento na Paraíba. Além disso, registros financeiros apontam que ele recebeu pagamentos da própria entidade organizadora em março de 2026, nove dias antes da prova. Um dos projetos pelos quais foi remunerado, intitulado “Gestão Visionária: IA para Concursos”, foi desenvolvido entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, período que coincide com a fase de elaboração das provas.
No Despacho nº 587/2026, a auditoria do TCM destaca a existência de indícios relevantes de violação aos princípios constitucionais que regem a administração pública. Segundo o secretário Vinicius Nascimento Santos, a simples quebra da igualdade de condições entre os candidatos já seria suficiente para comprometer a validade do certame, independentemente da comprovação de fraude direta.
Em sua defesa, o Instituto Verbena afirma que Luã comunicou um possível conflito de interesses em dezembro de 2025, o que teria resultado no bloqueio de seus acessos aos sistemas relacionados ao concurso. No entanto, o TCM sustenta que a cessão formal do servidor à Defensoria Pública, ocorrida em janeiro de 2025, não interrompeu suas atividades no instituto, conforme indicariam registros de viagens institucionais e pagamentos recorrentes ao longo do período.
