
O crescimento das apostas esportivas on-line também tem sido acompanhado pelo aumento das disputas entre consumidores e plataformas. Em Goiânia, essa realidade já aparece nos tribunais. A capital goiana ocupa a oitava posição entre as cidades brasileiras com maior número de processos judiciais movidos contra empresas de apostas esportivas e jogos on-line, as chamadas bets. Ao todo, são 111 ações registradas, número que coloca a cidade entre os principais polos de judicialização desse mercado no País.
Os dados fazem parte de um levantamento da empresa Predictus, especializada em inteligência jurídica, que identificou mais de 10,6 mil processos envolvendo casas de apostas em todo o Brasil desde 2018. Embora as ações tenham começado antes da regulamentação do setor, a maior parte delas foi registrada após a sanção da Lei das Bets, no fim de 2023, período em que o mercado passou por forte expansão.
Regulamentação impulsionou disputas judiciais
Além de Goiânia, outras grandes capitais aparecem entre as cidades com mais ações, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza, Manaus, Curitiba e Porto Alegre. No Centro-Oeste, região responsável por 6,9% de todos os processos do País, Goiás concentra boa parte da movimentação judicial relacionada às plataformas de apostas.
A regulamentação abriu espaço para a atuação de dezenas de empresas autorizadas pelo Governo Federal e impulsionou um mercado que movimentou cerca de R$ 37 bilhões em 2025. Ao mesmo tempo, aumentaram as reclamações de consumidores que alegam problemas como bloqueio de contas, dificuldades para sacar valores, mudanças nas regras das promoções e retenção de prêmios.
Somente em 2025, foram ajuizadas 5.488 novas ações em todo o País. Entre janeiro e maio deste ano, outras 4.037 já haviam sido protocoladas, indicando que a judicialização continua em ritmo acelerado.
Apesar do elevado número de processos, boa parte deles ainda aguarda uma decisão definitiva. Dos mais de 10 mil casos identificados pela pesquisa, pouco mais de um terço já foi julgado. Entre as ações concluídas, os consumidores obtiveram decisões totalmente ou parcialmente favoráveis na maioria dos casos.
Impacto vai além da Justiça
Para a economista Greice Guerra, o crescimento das apostas não representa apenas um desafio jurídico, mas também econômico. Segundo Greice, muitas famílias acabam comprometendo parte da renda na expectativa de obter ganhos rápidos, deixando de destinar recursos para objetivos financeiros mais seguros.
“A aposta não deve ser vista como investimento. Muitas pessoas acreditam que conseguirão aumentar a renda de forma rápida, mas acabam entrando em um ciclo de perdas que compromete o orçamento familiar”, afirma.
De acordo com a especialista, quando esse comportamento se torna frequente, o impacto ultrapassa as finanças individuais e chega à economia local. Isso porque o dinheiro que poderia ser utilizado para consumir produtos, contratar serviços ou fortalecer o comércio acaba sendo direcionado às plataformas de apostas.
“Quando as famílias ficam endividadas, elas reduzem os gastos com lazer, alimentação fora de casa e outros serviços. O comércio sente essa retração porque o consumo diminui”, explica.
Greice também ressalta que muitas pessoas voltam a apostar mesmo após obter algum ganho financeiro.
“É comum que o valor conquistado seja reinvestido imediatamente em novas apostas, criando um ciclo que favorece o aumento das perdas. Por isso, a educação financeira é fundamental para estabelecer limites.”
Na avaliação da economista, a busca pelo chamado “dinheiro fácil” pode afastar os consumidores de estratégias capazes de proporcionar maior estabilidade financeira no futuro. Greice defende que parte dos recursos destinados às apostas poderia ser utilizada para formar uma reserva de emergência, investir em previdência complementar ou realizar aplicações financeiras de longo prazo.
“O patrimônio é construído gradualmente. Não existe fórmula para enriquecimento imediato. Quem faz planejamento financeiro consegue estabelecer metas e preservar sua renda, enquanto o excesso de apostas pode gerar endividamento e até problemas nas relações familiares”, destaca.
Com Goiânia figurando entre as cidades brasileiras com maior número de processos contra empresas de apostas, especialistas avaliam que o crescimento desse mercado exige atenção não apenas do Judiciário, mas também dos órgãos de defesa do consumidor e das políticas voltadas à educação financeira.