
Plataformas de apostas on-line serão bloqueadas em 6 de outubro por determinação do governo federal, após a publicação de uma medida provisória na última sexta-feira (25) que determina o fim das operações de bets no Brasil. O bloqueio será executado por provedores de internet, lojas de aplicativos e pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), com o objetivo de conter o endividamento das famílias brasileiras.
Antes da data, os usuários terão até as 23h59 de 5 de outubro para sacar o saldo depositado nas plataformas autorizadas. A medida foi anunciada nove dias antes das eleições. Quem não conseguir retirar o dinheiro até 5 de outubro terá os valores devolvidos pelas instituições financeiras entre 9 e 14 de outubro. A partir de 14 de outubro, a Caixa Econômica Federal passará a intermediar os casos em que houver impedimentos para a devolução.
Até 6 de outubro, as plataformas permanecerão disponíveis exclusivamente para o resgate de saldos, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan.
Um levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), divulgado em agosto, estimou que as apostas retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025, com uma saída média de R$ 4,7 bilhões por mês entre outubro de 2024 e março de 2026.
No mesmo período, o governo arrecadou R$ 15,3 bilhões em tributos de empresas de apostas desde o início de 2025.
Adolescentes são um grupo vulnerável
Uma pesquisa educacional da Frente Parlamentar, realizada entre agosto e setembro com 1.912 alunos, mostra que o contato com as bets aumenta conforme avança a escolaridade. Entre estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental, 16,2% afirmaram já ter apostado. No Ensino Médio, o percentual chega a 27,3%.
Entre aqueles que já apostaram, 40% não conseguem avaliar se ganharam ou perderam dinheiro. No Centro-Oeste, 7,7% dos estudantes que tiveram lucro afirmaram ter ganhado valores superiores a R$ 5 mil.
Para a neuropsicóloga Fabiane Fagundes, especializada no atendimento de crianças e adolescentes, o cérebro ainda está em processo de amadurecimento durante a adolescência, principalmente nas áreas relacionadas ao controle de impulsos, planejamento, avaliação de consequências e tomada de decisões.
Segundo Fabiane, estímulos como excitação, novidade e possibilidade de recompensa imediata podem ter impacto significativo nessa fase, como ocorre nos jogos e nas apostas, que envolvem expectativa, recompensa e imprevisibilidade.
“O adolescente pode saber racionalmente que existe um risco de perder dinheiro e, mesmo assim, ter dificuldade de interromper aquele comportamento diante da expectativa de ganhar. Isso não significa que todo adolescente que aposta vai desenvolver uma dependência. Significa que estamos falando de uma população que merece proteção especial”, afirma.
Segundo Fabiane, fatores emocionais e sociais, como a necessidade de pertencimento ao grupo, a influência dos amigos, a publicidade, as redes sociais e a normalização das apostas podem diminuir a percepção de risco.
Risco de migração para o mercado ilegal preocupa governo
Com a proibição das bets, o governo federal reconhece que parte dos apostadores pode migrar para esquemas de apostas ilegais. O ministro da Fazenda incluiu esse risco entre as preocupações do governo no anúncio da medida.
O economista Pedro Henrique Evangelista, professor de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Goiás (UFG), afirma que é importante criar mecanismos de fiscalização e acompanhamento para evitar que os apostadores migrem para o mercado ilegal.
Segundo o economista, isso não significa que a proibição das bets alimente necessariamente o mercado ilegal. Para Pedro, os esquemas clandestinos já existiam antes das plataformas autorizadas e continuarão existindo independentemente da proibição “Não entendo que a proibição das bets alimente o mercado ilegal. O mercado ilegal já existia, existe e vai continuar existindo”, afirma.
Para o economista, acompanhar o endividamento das famílias será importante para avaliar os efeitos da proibição. Segundo Pedro, as dívidas relacionadas às apostas contribuem para o endividamento, embora não sejam o principal fator responsável por ele. Por isso, será necessário observar se a medida resulta em redução do endividamento das famílias.
Pedro também destaca a importância de acompanhar indicadores relacionados à atividade econômica e ao consumo.
Segundo estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), referente a 2025, as apostas online retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira, o equivalente a até 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB).
O estudo aponta ainda que o setor gerou cerca de R$ 9 bilhões em receita direta de impostos para o poder público.
Para Pedro, quando esse dinheiro deixa de ser destinado às apostas e volta a circular na economia, seja para o pagamento de dívidas das famílias ou para o consumo de mercadorias, pode haver estímulo à produção e aos investimentos do setor privado.