A dificuldade de acesso aos locais de votação, compromissos pessoais e a perda de confiança na política estão entre as razões relatadas por brasileiros que não votaram no primeiro turno das eleições de 2026. Ao todo, cerca de 33,4 milhões de eleitores deixaram de comparecer às urnas, o equivalente a 21,08% do eleitorado — maior percentual registrado em uma eleição geral desde 1998.
Os motivos são variados. Há quem tenha viajado, quem não tenha conseguido regularizar o local de votação e quem tenha desistido diante de obstáculos físicos. Para outros, a decisão de não comparecer está relacionada à insatisfação com os candidatos e à percepção de que a participação eleitoral pouco altera a realidade do país.
Polarização contribui para o afastamento
O cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), relaciona parte do desinteresse ao cenário de polarização e à rejeição aos principais candidatos à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Na avaliação do pesquisador, a percepção de que o voto não produz mudanças concretas pode aumentar o distanciamento entre eleitores e representantes políticos. Esse sentimento de descrença, segundo ele, ajuda a compreender o elevado número de ausências.
Os relatos de eleitores mostram que a decisão de faltar às urnas não se resume à rejeição à política. Problemas práticos também impediram pessoas que gostariam de participar da votação.
Burocracia e barreiras físicas impediram votos
O estudante de economia Roberto Gepp mudou-se de Brasília para São Paulo, mas não transferiu o título eleitoral dentro do prazo. Ele lamentou não ter conseguido escolher seus representantes e avaliou que as exigências para alterar o domicílio eleitoral dificultam a participação.
Já Henrique Eduardo Bahouth, de 73 anos, chegou à seção eleitoral, mas desistiu diante do movimento intenso e da desorganização que percebeu no local. Ele afirmou que nunca havia deixado de votar anteriormente.
A estudante Bianca Dantas enfrentou outro obstáculo. Duas semanas antes da eleição, ela havia passado por uma cirurgia no joelho e não conseguiu subir os dois lances de escada que davam acesso à seção eleitoral. Sem tempo para solicitar uma mudança para um local acessível, precisou ir embora sem votar.
O episódio levantou uma questão sobre as condições oferecidas a pessoas com mobilidade reduzida, inclusive aquelas que enfrentam limitações temporárias decorrentes de cirurgias ou acidentes.
Descrença também pesa na decisão
Entre os eleitores que optaram por não votar por discordarem dos candidatos, está Maria Luíza Teixeira, de 73 anos. Ela poderia deixar de comparecer às urnas por estar acima da idade em que o voto é obrigatório, mas afirmou que sua decisão também foi motivada pela insatisfação com Lula e Flávio Bolsonaro. Ela disse que não pretende votar no segundo turno e que, se comparecesse, anularia o voto.
A servidora pública Nara Oliveira também relatou desânimo. Para ela, o custo e o tempo necessários para chegar ao local de votação não compensavam diante da falta de confiança nos políticos. A eleitora citou o caso do Banco Master como um dos motivos para acreditar que representantes públicos priorizam interesses próprios.
Em sentido diferente, a estudante Maria Júlia Costa não votou porque viajou para participar de um evento familiar em outra cidade. Ela afirmou, porém, que pretende comparecer ao segundo turno e mantém a confiança na política e no exercício da cidadania.
Sudeste e Centro-Oeste têm maiores índices
Os dados regionais mostram diferenças na proporção de eleitores ausentes. O Sudeste registrou 22,7% de abstenção, com aproximadamente 15 milhões de pessoas que não votaram. No Centro-Oeste, o índice chegou a 21,7%, correspondente a cerca de 2,6 milhões de eleitores.
No Nordeste, onde Lula obteve a maioria dos votos, a abstenção foi de 18,4%, o equivalente a aproximadamente oito milhões de pessoas.
Para Medeiros, aumentar o comparecimento não significa necessariamente ampliar a votação de um candidato específico. O resultado depende das preferências políticas dos eleitores que faltaram no primeiro turno.
Segundo turno será novo desafio
O cientista político avalia que a mobilização para a próxima votação será especialmente difícil em estados onde as disputas para governador já foram definidas. Sem outras eleições locais em andamento, campanhas e lideranças regionais podem ter menos incentivos para mobilizar os eleitores.
O levantamento também evidencia que o custo do deslocamento e as dificuldades para chegar às seções podem pesar mais para pessoas de menor renda do que a própria multa por não justificar a ausência.
Quem não votou no primeiro turno ainda pode participar do segundo, desde que esteja com a situação eleitoral regularizada. Cada turno é considerado uma votação independente pela Justiça Eleitoral.
Por: francesnews.com.br