O portal de notícias dos goianos!

O escorregão da Globo

Há uma velha máxima segundo a qual não basta ser honesto. É preciso também parecer honesto. No jornalismo, não basta ser independente. É indispensável não permitir que o público tenha motivos para duvidar dessa independência.

A direção da TV Globo parece ter esquecido essa lição elementar. Na sexta-feira (16), poucas horas antes da entrevista de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional, o candidato foi recebido para um almoço pelopresidente do Grupo Globo, João Roberto Marinho, e pelo vice-presidente de Relações Institucionais, Paulo Tonet.

Na véspera, Lula havia sido entrevistado pela mesma emissora, mas não recebeu tratamento semelhante. A Globo explicou que se tratou de uma visita institucional, sem a participação de jornalistas e que receberia Lula caso ele solicitasse um encontro. A explicação não elimina o problema.

A questão não é saber o que foi servido à mesa, tampouco o que foi conversado. É saber o que aquele encontro representou para a imagem de uma empresa que se apresenta como referência do jornalismo brasileiro.

Em plena campanha presidencial, com uma eleição disputadíssima, os dirigentes deveriam ter evitado qualquer gesto capaz de produzir interpretações de preferência política. Não precisavam receber ninguém. Muito menos um dos candidatos justamente no dia de sua entrevista. A imprudência foi ainda maior porque colocou sob suspeita, desnecessariamente, o trabalho dos próprios jornalistas da emissora.

E foi aí que Renata Lo Prete fez a diferença. Na entrevista, demonstrou independência profissional. Questionou, insistiu, cobrou explicações e não poupou Flávio Bolsonaro de perguntas incômodas. Não transformou a sabatina em conversa de salão. Cumpriu seu papel de jornalista.

Na minha avaliação, Renata preservou, diante das câmeras, a credibilidade que a direção havia colocado em risco nos bastidores. Não afirmo que tenha havido favorecimento político. Não há elementos para essa conclusão, mas a ética jornalística exige cuidados que vão além da ausência de interferência comprovada. Exige prudência, transparência e tratamento isonômico.

Uma emissora da importância da Globo não pode desconhecer o peso simbólico de seus gestos. Seus dirigentes deveriam saber que, em tempos de polarização, até um almoço pode se transformar em notícia e em motivo de desconfiança. O jornalismo não vive apenas de audiência. Vive de credibilidade e esta se constrói durante anos, mas pode sofrer arranhões em poucas horas.

A direção da Globo escorregou. Renata Lo Prete manteve-se de pé.

Fica a lição: quem tem a responsabilidade de informar milhões de brasileiros não pode brincar com as aparências, porque a independência do jornalismo precisa estar presente tanto diante das câmeras quanto longe delas.

Por: Portalgo